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Segunda noite de colação de grau em Fortaleza reafirma a universidade como escolha para um futuro mais digno e coletivo

Ao contrário do ciclo da educação básica, que é obrigatório e cujo acesso é um direito garantido pela Constituição Federal, cursar o ensino superior, no Brasil, é uma decisão individual. Se por um lado pesquisas apontam a graduação como fator decisivo na valorização profissional e no alcance de melhores oportunidades, por outro a precarização do trabalho e a pressão de um mercado pautado pelo desempenho constante e autoexploração têm desestimulado cada vez mais pessoas a investir em uma formação superior.

Nesse labirinto, a escolha pela universidade normalmente exige sua compreensão para além de instrumento de capacitação profissional. Entendida como espaço para o desenvolvimento pessoal e intelectual, a universidade torna-se uma decisão: pela valorização do conhecimento como pilar na construção de uma sociedade mais justa e sustentável, em vez de apenas moeda de troca; pela resistência ao movimento de mercantilização da vida, que solapa o prazer no processo de aprendizagem e descoberta.

 Imagem: jovem pardo sorridente veste beca preta com faixa azul, com as mãos para o alto. Ao fundo aparece a fachada rosa da Reitoria da UFC

Mas essa não é nem de longe uma decisão fácil, sobretudo no contexto sociocultural brasileiro. Requer sacrifício, determinação, rede de apoio, esforço pessoal e políticas institucionais de inclusão e incentivo. No segundo dia do ciclo de colações da Universidade Federal do Ceará em Fortaleza, realizado nesta quarta-feira (27), essa foi a equação citada por muitos formandos, entre eles João Felipe Gonçalves da Silva, de 27 anos, concludente do curso de Agronomia.

Oriundo de escola pública, o jovem ingressou pelo sistema de cotas e define sua jornada na UFC como gratificante. “Cursar ensino superior sempre foi um desejo meu, e queria fazer isso na UFC. Então me sinto afortunado por ter conseguido entrar e chegar até o final. Não foi fácil, tive pedras no caminho, mas valeu a pena”, conta, recordando o período em que precisou trancar a matrícula por conta do trabalho.

Para além das salas de aula, João Felipe lembra a participação em grupos de estudo de agroecologia e a conquista de bolsas de pesquisa para estudar microverdes nos laboratórios de olericultura e de cultura de tecidos. “Aprendi demais”.

Veja outras imagens da solenidade no Flickr da UFC

Essa amplitude de experiências também marcou a trajetória de Bruna Carla Balbino dos Santos, de 26 anos, concludente de Engenharia Metalúrgica. “Pude me desenvolver bastante aqui dentro. Fiz amizades, participei de atividades em laboratório e também da empresa júnior, fui a congressos e tive bolsa de iniciação acadêmica. Tudo isso foi muito benéfico para a minha formação, algo que vou levar para a vida”, contou.

Imagem: jovem negra sorridente veste beca preta com faixa azul e segura o canudo de formatura ao lado de um homem e uma mulher mais velhos, que parecem ser seus familiares. O homem usa camisa vermelha e a mulher está com vestido verde-limão. Eles posam juntos em frente a um palco branco ao ar livre, com outras pessoas ao fundo participando da cerimônia de colação de grau.

DECISÃO E PERSISTÊNCIA – Em meio a um mar de becas e capelos, Rina Marcia Araújo Sousa se destacava por ser um pouco mais velha do que a média dos formandos. Aos 51 anos, ela comemorava a segunda graduação, após uma longa caminhada de insistência. Antes de conseguir uma vaga no bacharelado em Geografia, em 2017, por transferência interna, tentou os cursos de Letras Inglês semipresencial pela UFC Virtual e Letras – Português/Inglês presencial. 

“Não consegui acompanhar pela dificuldade com o idioma estrangeiro, não tinha proficiência. Mas não queria desistir do sonho da universidade, então fiz transferência para a Geografia”, recordou. Perto de se formar, fez o Enem novamente e, em 2022, garantiu uma vaga na chamada de suplentes, dessa vez para a licenciatura em Geografia. “Num dia colei grau, no outro estava fazendo nova matrícula”, conta. Por ter aproveitado disciplinas, terminou a segunda graduação mais rapidamente.

Imagem: mulher branca, de cabelos pretos e lisos, posa sorrindo para foto, vestindo beca, capelo, faixa azul e usando óculos. Ao fundo, aparece a fachada cor de rosa do prédio da Reitoria da UFC

“Agradeço muito à UFC, porque consegui bolsas, isenção no Restaurante Universitário, e tudo isso me ajudou a permanecer na graduação. Para pessoas mais velhas pode ser bem difícil, pelos compromissos que temos, com trabalho, com família”, reconhece. Mas os desafios parecem incentivar Rina, que já fala em mestrado. “Aí acho que vai ter mais pessoas da minha idade”, brinca, firme em sua decisão pela educação.

FORMAÇÃO PARA A VIDA – Na cerimônia de colação, a importância das redes de apoio, das políticas para a educação e da valorização do conhecimento estiveram presentes em todas as falas. Em seu discurso, a representante discente Nicole Loreto Alves, do curso de Engenharia Química, destacou a transformação vivida por todos os colegas formandos.

Imagem: jovem formanda com beca preta e capelo sorri segurando o diploma enrolado, em frente à mesa de honra da cerimônia. Atrás dela, professores com capas azuis e roxas estão sentados. No alto, aparece o brasão da Universidade Federal do Ceará (UFC) projetado na parede do palco iluminado.

“Hoje partimos carregando a certeza de que a educação não nos moldou apenas como profissionais, mas também como cidadãos preparados para crescer e se reinventar em qualquer lugar”, resumiu a jovem. “Celebramos aqui não apenas a conclusão de um curso, mas a força de uma instituição pública e de qualidade, que deve ser preservada e sempre valorizada. A UFC estará sempre presente em nossa história, e carregamos conosco a responsabilidade de honrar esse legado”, finalizou.

INSPIRAÇÃO – Ao assumir o púlpito, o representante docente Daniel Brito de Freitas, coordenador do curso de Licenciatura em Física, emocionou a todos com um discurso potente e lúcido. “Nossos formandos de licenciatura enfrentaram o desafio não apenas de aprender ciência, mas de aprender a ensinar ciência. E ensinar ciência em um país como o nosso é um ato de coragem e de esperança”, observou o docente.

“Já os formandos do bacharelado também carregam um peso enorme. O de avançar no conhecimento científico, em laboratórios de pesquisa, enfrentando limitações de recursos e muitas vezes a incompreensão de que não sabem que sem ciência não há futuro sustentável, não há inovação, nem tampouco desenvolvimento humano”, seguiu. 

Imagem: homem de cabelos grisalhos e óculos redondos fala ao microfone durante cerimônia noturna. Ele veste beca preta com capa azul clara sobre os ombros. Ao fundo, há árvores iluminadas e parte de uma tenda branca, compondo o cenário do evento ao ar livre.

O professor ressaltou ainda a responsabilidade de cada formando a partir daquele momento, e a ação coletiva como único caminho possível. “A ciência, apesar de todas as dificuldades, é o que nos permite sonhar com um planeta melhor. É a ponte entre a imaginação e a realidade. E vocês, formandos e formandas, são agora os construtores dessa ponte”, pontuou. “Somos muitos e é disso que precisamos. Muitos pensando e concretizando coletivamente. Assim como o céu não se ilumina com uma só estrela, mas com milhões delas”.

COLETIVIDADE – Encerrando a noite, o discurso do reitor Custódio Almeida reforçou as falas dos representantes. “O diploma de vocês dá lastro para as transformações que desejamos e necessitamos para nossa sociedade e para o mundo. A Universidade Federal do Ceará tem o orgulho de formar cidadãos comprometidos com a ciência, com a ética, com a justiça social, com a emancipação humana e com a defesa da natureza e da vida”, manifestou o gestor.

Imagem: mesa de honra de uma cerimônia de colação de grau, com vários docentes vestidos de beca preta e capas azul-escuras. Em destaque, uma mulher de óculos e cabelos grisalhos cacheados sorri, enquanto um homem ao seu lado, também de óculos, usa capa branca e fala ao microfone. À frente deles, sobre a mesa, há uma escultura branca em formato de jangada com vela. Ao fundo, outros professores acompanham a solenidade

“Os conhecimentos adquiridos não pertencem apenas a vocês, mas a toda a sociedade, porque são uma construção coletiva. E essa sociedade espera contribuições significativas para melhorar o presente e trazer esperança para o futuro”, reiterou.

Fonte: Secretaria de Comunicação e Marketing (UFC Informa) – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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